QUO VADIS?

A crescente crise brasileira se apresenta em todos os campos da vida nacional: politica, econômica e social. É difícil entabular os dados reunidos nessa complexa, incomum – extraordinária, talvez – e turbulenta conjuntura, mutável e surpreendente a cada lance, movimento ou posição.
É consenso entre os observadores mais críticos e honestos que o impeachment aplicado contra a Presidenta Dilma Rousseff foi um Golpe de Estado articulado pela Direita neoliberal que lhe fazia oposição, apoiado pela mão estadunidense, pelas corporações midiáticas, pela burocracia estatal judiciária, pelo pior Parlamento já eleito desde a Redemocratização.
Sucessivamente derrotada nas urnas e adversária devota de qualquer projeto desenvolvimentista, autônomo, democrático, popular e includente/redistributivo, a Frente Ampla Golpista tratou de inviabilizar o segundo mandato através de lock out econômico, pautas-bomba no Congresso, feroz perseguição policial e judicial e editorialismo manipulativo nos meios de comunicação. Contou ainda com uma base social inédita que uniu empresariado, classe média, evangélicos, juventude conservadora, grupos de extrema-direita e outros tipos.
A intenção era clara e óbvia: destituir e impedir a Esquerda de prosseguir no comando político dos rumos do país, regredir nos quesitos de Direitos, Democracia, Liberdades, Cidadania, Soberania e Bem Estar Social e emplacar uma agenda rediviva dos anos 90 mais profunda, extensa e severa. Havia a certeza de que o tucanato recuperaria as rédeas do país e daria fim aos fundamentos da Era Lula/Dilma/PT, bastava esperar as eleições e, a bem da verdade, o pleito de 2016 parecia consagrar a tese.
Porém, num atípico e inusitado caso de reviravolta política, as expectativas não ocorreram conforme o programado. A guinada à direita escapou das mãos dos principais atores partidários – também renegados por parte do eleitorado – e um outsider, um oportunista político, acabou aglutinando o sentimento antissistêmico, a tendência antipolítica, a medida bruta e autoritária como forma de resolução dos problemas, o fetiche militarista, o discurso econômico ultraliberal, o patriotismo ufanista e xenófobo, a indignação contra a corrupção e o moralismo fundamentalista pentecostal.
A vitória de Bolsonaro, portanto, se deu a contragosto de parte da própria Direita, obrigada a adotar sua candidatura como único recurso para vencer a Esquerda parcialmente recobrada em suas forças. O heterogêneo e indigesto bloco vencedor guardava em si contradições, disputas e pretensões várias. Aqui reside um dos aspectos que, talvez, expliquem a fissura existente entre os parceiros do Golpe e da Fraude Eleitoral.
Cumpre dizer que o Clã Bolsonaro e seus aliados mais fervorosos ou mais identificados (os lavajatistas de Moro e companhia) carecem de traquejo político, inspiram pouca confiança nos tradicionais senhores do Capital e projetam segmentos abominados pelos liberais, além de encontrarem-se enroscados numa teia de corrupção, milícias e crimes comuns.
O campo popular ainda mostra dificuldades de organizar luta unitária e ampla contra as ações de Bolsonaro. A resistência contra a Reforma da Previdência é menor do que sua gravidade. Porém, o fato novo, o levante estudantil, sindical e societário contra os ataques à Educação alimentam um movimento ainda imprevisível, mas promissor e alvissareiro. Interessa, obviamente, que o mesmo se consolide e amplie seu espectro, repercutindo a recusa dos setores mais esclarecidos e combativos da sociedade.
Também é digno de nota a inteligente movimentação da Esquerda no terreno parlamentar. Há uma fenda aberta entre os poderes Executivo e Legislativo que merece ser explorada com habilidade, destreza e paciência, impedindo a consagração da linha governista como vencedora das discussões gerais de interesse nacional.
Mas é inegável que o elemento mais marcante nesse momento é a condição política que, outrora, juntou a Extrema-Direita com a Direita. O butim eleitoral está abertamente em disputa. A inoperância governamental, estampada na esquizofrenia política e na incapacidade econômica, depõe contra Bolsonaro e autoriza parte do establishment a pautar seu impedimento “constitucional”. Na base social e eleitoral, há frustração generalizada, acompanhada de aguda queda de popularidade. O voto antipetista, antes entusiasta, perde potência e existem aqueles que já baixam a guarda aos reclames da Esquerda.
A Direita neoliberal não-fascista, parte do corpo militar, setores alinhados à alta magistratura, mídia hegemônica e o “Centrão” acenam com um soslaio escapista: desidratar, isolar e alienar Bolsonaro para assim capturar o comando do país. Mourão não é confiável, o nome é Maia, e isso é um obstáculo para a pavimentação de um novo quadro de poder. Quer dizer, há espaço e conflito suficiente para novas fissões e fusões, rearranjos e acordos de todo tipo. A crise imperialista lança o seu elo mais fraco num torvelinho do qual nem seus próprios atos tem controle sobre os mesmos.
É um lapso de “espaço-tempo político” delicado e raro, mas que pode ser sinônimo de uma intervenção da Esquerda. Não é tarefa simples, fácil ou agradável, mas é necessária. Superando os equívocos e purismos de 2013 em diante, temos um “portal” capaz de nos ligar novamente às massas cinzentas que, corajosas, ocupam ruas, redes e rodas de discussão.
Tal qual a interrogação dos primeiros cristãos, “quo vadis?”, “aonde vai?”, cabe as contemporâneos campeões da Justiça, Liberdade, Igualdade, perguntarem-se para onde caminha o país e seu povo e apresentar-se como os sujeitos históricos e coletivos apropriados para reconduzir o Estado e a Sociedade para um projeto avançado e liberto do fascismo, do neoliberalismo, do entreguismo e da submissão.
Dias 30 de Maio e 14 de Junho hão de ser maiores, muito maiores. Oxalá, assim seja, pois só à luta a vida muda!
Alex Saratt


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