QUANDO MAIO VAI JUNHO A DENTRO
A jornada de lutas e disputas abertas pelo levante da Educação promete não se encerrar tão cedo e aponta firme e decidida consolidação e unidade em torno do 14J – Greve Geral da Classe Trabalhadora – marco, eixo e tarefa de um promissor e potente rearranjo das forças sociais, organizativas e cívicas progressistas conscientizadas da necessidade de estruturar uma plataforma comum em defesa do Brasil, da Democracia, das Liberdades e dos Direitos.
O anúncio apressado de um “Pacto pelas Reformas” feito pelos representantes dos Poderes republicanos e estatais – cada vez mais ilegítimos, arbitrários e impopulares – é antes uma demonstração de receio, afobamento e aparência do que uma verdadeira pactuação comprometida com um projeto consensuado, homogêneo e convicto para estabelecer um poder, governança e de contrarreforma estatal, societário e jurídico hegemônico, pois unânime.
Na realidade, a “Frente Ampla do Golpe” percebeu suas divergências e rachaduras explícitas, agudas, crescentes e instáveis e agiu emergencialmente – à custa do sacrifício do povo – para estancar sua crise. O Bolsonarismo usou sua reserva de capital político para mostrar que tem apelo e capacidade de mobilização de massa, condições das quais a Direita tradicional não possui ou preferiu não utilizar.
A mídia – protagonista do Golpe – está envolta numa guerra interna visceral e trabalha de modo diversificado: há empresas de comunicação que fecham questão com Bolsonaro e lhe fazem propaganda engajada, porém existe uma parte da imprensa que adota linha dúplice, ora crítica e denuncista das ações, discursos e escândalos do Governo, ora favorável às medidas de cunho econômico privatista e de concepção administrativa empresarial.
O Parlamento, os Partidos e os Governos Estaduais acompanham com inescrupuloso cuidado as repercussões dos atos políticos e as consequências preocupantes da falta de um rumo econômico coerente e perspectivo. O “combo” inabilidade política, pêndulo governamental, desorganização econômica e agravamento da tensão social é deveras perigoso para que os apoios tenham segurança e confiança absolutas, havendo inclusive espaço para rumores e sugestões de impeachment.
No Poder Judiciário, fiador do Golpe, do sustento do Governo Temer e da prisão de Lula, nada indica cenários róseos. A indisposição da alta magistratura com as instâncias e agentes do baixo clero judicial volta e meia aparece como um conflito de interesses, pretensões e ambições pouco ou nada cortês. A relação entre o STF e os “lavajateiros” degrada a olhos vistos e não são raras as situações de desautorização mútua, expressando-se nas ruas com as palavras de ordem dos manifestantes do 26M.
Restam os militares, segmento alçado ao centro da arena política, tanto pela vice-presidência quanto pela ocupação de cargos chave na gestão e também pela retórica saudosista da Ditadura ou pelo fetiche da lei, ordem e disciplina, que acompanham com obsequiosa discrição e atenção os lances da turbulenta conjuntura nacional e podem arriscar seus próprios voos.
“Mas, entretanto, contudo, porém” o que causa intenção e gesto é a nossa força. A Esquerda - e não só ela, inclua-se democratas, patriotas, liberais sinceros, sujeitos conscientes, indivíduos de índole e razão – precisa acordar: no sentido de despertar e no intuito de se combinar. Num quadro defensivo, resistente e contrário aos princípios, padrões e perspectivas humanistas, cabe dedicação exclusiva à construção de uma organização, movimento e luta que abranja, acolha e articule a pluralidade politizada, combativa e inteligente do que de melhor e mais avançado a consciência pode produzir.
Nesses tempos sombrios em que se vive, a visão tática larga, a generosa audição a quem não verbaliza exatamente como nós, a ideia e o discurso flexível “sin perder la ternura jamás” e a cooperação entre díspares parecem ser calhas que conduzirão a uma nova correlação de forças.
Maio de 2019 anuncia um Junho de muita sinergia política. A juventude que está nas ruas não é a mesma de 2013, é a das ocupações, do “Não Vai Ter Golpe, Vai Ter Luta”, do Fora Temer e do #EleNão. Os trabalhadores e trabalhadoras em movimento representam uma vanguarda resistente e resilente, forjada por um sindicalismo classista que ainda preocupa e assusta os golpistas devido sua sobrevivência mesmo sob severa artilharia neoliberal e conservadora. Setores sociais e políticos moderados se aproximam e participam, rompendo o “cordão sanitário” que isolava e dividia a Esquerda do resto da sociedade civil.
Definitivamente, Maio foi Junho adentro. O que se iniciou não irá parar tão fácil. Agora, é pressionar os elos mais fracos da corrente para que quebrem sua conexão com o extremismo bolsonarista e passem a postular também eles uma união cívica e nacional convergente na superação da crise através do desenvolvimento, na detenção e afastamento da vilania miliciana das esferas de poder, na recuperação dos quesitos democráticos e na garantia dos direitos e do bem-estar do povo.
A ver. Mas nada depõe contra esse “otimismo da vontade” se realmente transformarmos o 14 de Junho num grande momento histórico, suficiente para projetar uma reviravolta incrível na conjuntura. Como numa pixação antiga que via nos muros de Londrina na década de 80: “Só à luta a vida muda!”.
Alex Saratt

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