EUPHORIA, UTOPIAS E DISTOPIAS

Estou acompanhando uma série nova, “Euphoria”, produzida pelo HBO, canal consagrado pelos filmes, documentários e seriados de excelência. Trata-se de um retrato (talvez hiperbólico) da juventude de classe média estadunidense, aquela das high schools, obcecada pela internet e redes sociais, mergulhada no abuso de álcool e drogas e aturdida por uma sexualidade desenfreada.
No seu terceiro episódio, uma das personagens principais, Kat - interpretada pela atriz Barbie Ferreira – é aquela garota obesa, fora do padrão estético de beleza (talvez fosse melhor dizer, da “ditadura da beleza”), tímida, vítima recorrente de bullying - excluída, desprezada e humilhada nos círculos sociais - protagoniza uma narrativa memorável, ainda que chocante.
A vida real de Kat é uma miséria, porém no mundo virtual a história é outra: ela é a dona de um blog com milhares de seguidores, ou seja, é admirada, idolatrada, uma espécie de celebridade. Mas o vazamento de um vídeo com travessuras sexuais coloca sua popularidade em risco. Para surpresa dela, o vídeo não só reforça a fidelidade dos fãs como aumenta o seu contingente exponencialmente.
Das imagens indiscretas surge uma onda de mensagens e pedidos vindos de rapazes e homens (e também de mulheres, por óbvio). Um deles propõe-lhe pagamento em troca de intimidades virtuais. Ela aceita. Marcada “a hora, o local e a razão”, Kat conecta-se com o desconhecido e inicia uma transmissão de vídeo. O sujeito é um homem de meia idade, algo entre 45 a 50 anos, gordo, de aparência desleixada e trajes rotos. Combinadas as partes e o pagamento, Kat se põe a realizar o fetiche do sujeito: xingamentos, humilhações, depreciações.
Excitado, o homem não só arria as ceroulas como também passa a se masturbar. Detalhe: a tomada não mostra um rosto se contorcendo de prazer ou um braço se movimentando em ritmo acelerado. Não! A cena filma o ato em si, realisticamente interpretado, causando um impacto visual e até moral no telespectador desavisado.
Impossível não se perturbar! A passagem, porém, lançou-me o pensamento para outro quadrante: longe de ser uma mera apelação em busca de polêmica e audiência, algo que não parece ser a necessidade de uma das maiores produtoras e emissoras de conteúdo audiovisual do mundo, me pareceu que a questão envolve aquilo que, espontaneamente, defini como hipersexualização.
A noção se relaciona com a seguinte situação: rodeados de confortos e facilidades que os fazem “morrer cheios de uma vida tão vazia”, como na letra dos Engenheiros do Hawaii e na falta de alternativas e saídas, muitas vezes diante do fracasso ou da apatia, os jovens quase que profeticamente, confirmam as prédicas d’O Manifesto do Partido  Comunista onde Marx e Engels não só vaticinam que, sob o capitalismo, “tudo que é sólido desmancha no ar” como também revelam que até mesmo as relações humanas, pessoais, afetivas seriam transformadas em mercadoria e mediadas pelo vil metal, o sexo se aliena do sujeito, vira válvula de escape, perde todo e qualquer afeto ou significação emotiva e se transforma num fim em si mesmo.
No desdobramento do raciocínio veio-me a recordação da obra “Psicologia de Massas do Fascismo” cuja tese central é a de que a repressão sexual cumpriu papel fundamental na montagem e afirmação da ideologia, discurso e prática do nazismo. Controle, vigilância, interdição, proibição geram sensações e sentimentos que frustram expectativas, desejos, vontade. A sequência repressão, frustração, raiva, ódio, intolerância se completa com a violência exteriorizada e canalizada na forma política.
Dito de outro modo, hipersexualização ou repressão sexual situam extremos que funcionam como mecanismos de domínio das subjetividades humanas. Cada qual a seu termo nos aliena e nos reduz a objetos. O sexo como mercadoria barata ou coisa impura ganha poderes superlativos sobre as pessoas, produzindo um simulacro de felicidade e realização ou repercutindo em forma de negacionismo e anulação individual.
Destas considerações empíricas e especulativas surgiu-me a ideia de compará-las com os conceitos de “utopia” e “distopia”, afinal ambas fundam duas visões antagônicas que se expressam em muitas divergências e disputas presentes no meio social.
A “utopia” é uma palavra cuja significação etimológica define o “não-lugar”, que não existiu, existe ou existirá. Na obra de Thomas Morus, intitula e descreve uma sociedade imaginária, um sistema idealizado, um modelo a ser perseguido. Reparemos que o escrito data da transição da Idade Média para a Idade Moderna e ainda sob hegemonia do pensamento político feudal.
De qualquer sorte, o livro de Morus inspiraria uma multidão de pensadores e homens de ação. Do Renascimento, passando pelo Humanismo, Racionalismo, Iluminismo, Liberalismo, Anarquismo, Socialismo até o Comunismo, todas os ideários contiveram um teor e caráter utópico. O Otimismo, o Progressismo e a inexorabilidade da Consciência estão como que inevitáveis e irreversíveis ao processo histórico humano.
O uruguaio Eduardo Galeano magistralmente ilustrou a “utopia” no seu texto “Para que serve a utopia?”. Para ele, ainda que jamais alcancemos a utopia, ela nos leva a caminhar permanentemente em sua direção e busca. De certa forma, pensando um caso concreto que nos dá dimensão do que disse Galeano, poderia utilizar o exemplo da Declaração de Independência dos EUA (1776), a qual preconiza que todos homens nascem livres e iguais, mas que só virá certificar tal princípio em 1863 quando da abolição da escravatura e, indo além, só atingiriam plenitude em 1964 com o Civil Rights Act, doravante determinando extintas quaisquer leis de segregação racial.
Portanto, o caminho das utopias é longo, tortuoso, difícil, porém reconhecível, válido e viável, mesmo quando demorado. A atual configuração global confirma a tendência humanística, civilizacional, societária e ética como padrão desejável, mas há inúmeros senões e poréns dada a desigual evolução de nações e povos e ao jogo geopolítico e econômico objetivo.
Noves fora, o que preocupa e mesmo aterroriza não são os desvios, limites, resistências ou oposições aos elementos utopistas da Modernidade, mas a emergência de concepções, mentalidades, atitudes e projetos distópicos. Não encontro melhor expressão do que a canção do cantor Tim Maia, tirado do título de um livro homônimo, designar as circunstâncias atuais: Universo em desencanto.
As distopias em vigor advogam pelo niilismo, por uma recusa daquilo que a Humanidade conseguiu elaborar de melhor, mais avançado, pois justo, equilibrado, positivo, e remetem o propósito da sociedade a um estágio retrógrado, involucionista, atávico. A viragem e recuo ao passado romantizado em suas brutalidades, excrescências e ignorâncias tomou corpo e alma de uma parcela considerável da população.
Ao assumirem causa e finalidade, as distopias reagem contra séculos de acúmulos, avanços e evoluções da Humanidade. Desde o Renascimento – movimento artístico, cultural e filosófico de recuperação e desenvolvimento das tradições e heranças do Mundo Clássico – passando pelo Humanismo e Racionalismo – valores e princípios éticos e científicos da nascente Modernidade – até o Iluminismo – radicalização das ideias renascentistas em forma de ação intelectual e política – e também o Liberalismo, Socialismo e Anarquismo – teorias, ideologias e projeções de sociedades futuras – todas as filiais da vertente comum são objeto de ataque e destruição do obscurantismo irracionalista fundamentalista extremado distópico.
Suas diretrizes miram a construção de um modelo social, mental e funcional onde as premissas e prerrogativas do Bem Estar, da Justiça, do Equilíbrio, da Felicidade, do Igualitarismo e da Liberdade serão revogadas em nome de um estágio societário anacrônico e involutivo. Em sua missão incivilizatória, as distopias preconizam a volta de tudo aquilo que fora superado, alimenta e estimula a negação dos direitos e deveres humanos, aprecia a selvageria nas relações societárias, naturaliza a desigualdade e a torna fator positivo, romantiza o passado autoritário, recomenda a violência como ato legítimo, celebra o preconceito e a discriminação, faz apologia da força bruta e da mentira, despe o sistema de qualquer ilusão ou disfarce.
O desafio último é, portanto, recolocar as utopias e suas pretensões otimistas e progressistas como eixo e norte da vida social. O perigoso crescente das formas e conteúdos distópicos são tóxicos, contagiosos, talvez até irrecuperáveis, capazes de danos estruturais permanentes nos imaginários, mentalidades, ideologias e psiquês coletivos. Dada a duplicata neoliberalismo radicalizado e neofascismo redivivo há difícil trajeto para percorrer. Oxalá tenhamos energia, inteligência, sagacidade, virtude e perseverança para salvaguardar a essência e existência de nossos antepassados.
De momento, a aprovação da maldita Reforma da Previdência, o apelo ao retorno do trabalho infantil e a insensibilidade aos que sofrem com o frio e a fome são sinais inequívocos de que as distopias lideram o pensamento e as vontades dos sujeitos, mas haveremos de triunfar.
Alex Saratt

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